domingo, 10 de abril de 2011

O DEUS DO RISO



Como os leitores já sabem, Iniciei neste blog uma série de posts que é voltada para o humor, onde conto casos hilários do meio evangélico. Batizei a série de Comédias da Vida Quase Real, sem nenhuma pretenção de ser ofensivo ou blasfemo ou de constatar científica e biblicamente os fatos ali narrados, ou de fazer uma hermenêutica e uma exegese rigorosa dos “fatos”, e nem tão-pouco passou por minha cabeça a idéia de menospresar as pessoas lá mencionadas de forma ofensiva.
Criei a série somente com a finalidade de contar situações engraçadas e inusitadas, fazendo uma crítica à ingenuidade e excesso de credibilidade do nosso povo.
Durante a elaboração dos argumentos aqui expostos, lembrei-me de um dialógo no fantástico filme O Nome da Rosa de Umberto Eco, quando Guilherme de Barskerville, o monge franciscano detetive é confrontado pelo velho Jorge de Burgos, o monge cego e austero, diante da risada inesperada de um monge copista no scriptorium da biblioteca do mosteiro, aonde estava havendo uma série de assassinatos misteriosos:
Irmão Jorge de Burgos:
- Um monge jamais deve rir! Só os tolos elevam a voz para rir!
- Espero quem minhas palavras não te ofendam, irmão Guilherme, mas é que ouvi pessoas rindo de coisas risíveis e lembrei um dos princípios da regra. Mas vós franciscanos, fazeis parte de uma ordem na qual vêem a alegria com indulgência, mesmo as mais importunas.
Irmão Guilherme de Baskerville:
- É verdade, São Francisco era dado ao riso.
Irmão Jorge:
- O riso é uma brisa demoníaca qque deforma os traços do rosto e faz os homens se parecerem com macacos.
Irmão Guilherme:
- Macacos não riem. O riso é característico dos humanos.
Irmão Jorge:
- Como o pecado! Cristo nunca riu!
Irmão Guilherme:
- Podemos ter assim tanta certeza disso? Nada nas Escrituras diz que ele riu, mas também não diz que não riu. Até os santos usaram da comédia para ridicularizar os inimigos da fé.
Quando pagãos mergulharam são Mauro num calderão de água fervente, ele ironizou reclamando que seu banho estava frio. O sultão colocou a mão na água e se queimou.
Irmão Jorge:
- Um santo imerso em água fervente não faz brincadeiras infantis. Ele reprime os gritos e sofre calado pela verdade.
Irmão Guilherme:
- Ainda assim, Aristóteles dedicou o Segundo livro da “Poética” à comédia como instrumento da verdade.
Irmão Jorge:
- Esse livro jamais existiu! A Providência não deseja que futilidades sejam glorificadas!
E por aí vai… mas esse diálogo do filme faz obrigatoriamente  vir à tona o assunto do humor, da alegria e  do riso na Bíblia. Faz-se constatar que doutrinas de homens criaram um fosso que dividiu a vida cristão, gerando a nefanda dicotomia agostiniana que separa o santo do sagrado. E infelizmente uma grande fatia do universo evangélico tem essa concepção estóica do bispo velho e cego do filme, uma visão gnóstica de que o cristão deve ser obrigado a viver como um abutre encurvado e sombrio, antipático, austero e sem graça.
Pergunto: Deus, o Criador do Universo, não tem senso de humor arguto e inteligente? E Jesus, o Homem Perfeito, realmente nunca se diivertiu, sorriu ou deu uma boa gargalhada?
Os matadores da alegria gostam de pensar que Deus é Deus irado, carrancudo, sempre mal humorado, que não tolera risadas ou senso de humor. Para esses estraga-prazeres de carteirinha, não se pode ser alegre, leve, descontraído, expontâneo, excluíndo a possibilidade de se usar do humor inteligentemente cáustico para evidenciar alguma crítica ou exortação indireta, e não se pode utilizar até das situações aparentemente trágicas para se abstrair o mais puro e fino humor utilizado para indireta e sutilmente divulgar a Verdade Deus, isso tudo, sem ser ofensivo, grosseiro e não querendo desmerecer a fraqueza alheia, em absoluto.
Esses tais jamais entenderão o significado de termos das Escrituras Sagradas como recrear-se (divertir-se), alegrar-se, regozijar-se, zombar, folgar, comprazer-se, deleitar-se, gozar, e por causa de suas mentes legalistas jamais divisarão certos lances da vida comum pela ótica do humor, antes permanecerão no deserto árido de seu rigor estóico de gente que não é feliz e não deixa os outros o serem.
Ora, Se Deus não tem humor apurado, então o que dizer do Salmo 2, quando diz:
"- O que habita nos céus, ri da aparente superioridade de força dos reis que contra Ele se insurgem. O Senhor se diverte à custa deles".
Se Deus não tem humor apurado o que dizer então de suas intervenções na história humana quando são marcadas, por vezes, com um fino toque de humor - como na história de Sara, que, ao entender-se grávida aos 90 anos, exclama:
"- Deus me fez rir e todos os que o souberem rirão comigo" (Gn 21,6).
Ou o que dizer do humor ácido do profeta Elias, quando desafia os profetas de Baal em 1Reis 18.27?
"Ao meio-dia, Elias zombava deles, dizendo:
− Clamai em altas vozes, porque ele é deus; pode ser que esteja meditando, ou atendendo a necessidades, ou de viagem, ou a dormir e despertará”.
E se Jesus, o Filho de Deus não tem senso de humor, então que tal ler Lucas 13: 21, onde diz:
“Naquela mesma hora se alegrou Jesus no Espirito Santo”.
Se Jesus não tem senso de humor, então por que aceitava freqüenter banquetes e festas de casamento que duravam uma semana de alegria e diversão? Será que ELe, nessas horas ficava lá, no meio da festança, todo casmurro em um canto, com as mãos postas, olhar beatificado fixando o infinito como nos filmes de Hollyhood, portando a auréola característica das pinturas da Renascença? Não. Certamente que Ele se divertia a valer com os convivas nas danças e nas conversas descontraídas que rolavam soltas nessas ocasiões festivas, regadas a muito vinho e comida até dizer chega!
Se Jesus não tem senso de humor, então porque ele contou uma anedota em forma de parábola no meio de uma crítica fulminante direcionada aos fariseus e intérpretes da lei em Lucas capítulo sete:
"- A que, pois, compararei os homens da presente geração, e a que são eles semelhantes? São semelhantes a meninos que, sentados na praça, gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes. Pois veio João Batista, não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demônio! Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos”.
Ou quando Jesus proferiu uma hipérbole revelando grande exagêro quando disse que era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céu, não seria isso puro humor tragicômico?
Então me desculpem os reprimidos, os hermeticamente fechados em seus cercadinhos de regras e tabus, mas seguirei os passos de meu Deus e de meu Mestre, vivendo na liberdade consciente de ser eu mesmo, em meio a um mundo que é por si só perdido, desesperado e maligno, mas com a chance de ver a vida positivamente, sob a ótica do humor e temperada com muitas piadas, muitos cartoons e muitas gargalhadas.

Texto de Manoel, extraído de www.genizah.com

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